Café faz mal ou faz bem? Entenda riscos e benefícios

Google Trends revela que 88% das buscas em 2025 questionam os malefícios da bebida; veja o que a ciência mostra e como consumir seu café com equilíbrio

Babi Fava

Por Babi Fava

No Brasil, café não é só uma bebida - é parte da identidade. Está no bom-dia da padaria, no intervalo do expediente, na visita à casa da avó. É símbolo de afeto, produtividade e rotina. Mas por trás de toda essa intimidade com a xícara fumegante, um dilema vem ganhando força.

Segundo levantamento da Sala Digital, em parceria exclusiva com o Google Trends, a pergunta “café faz mal?” aparece com sete vezes mais frequência do que “café faz bem?”. Isso mesmo: de cada 100 buscas feitas em 2025 sobre a bebida, 88% apontam para seus potenciais riscos. A desconfiança, que cresce há mais de uma década, atingiu um pico inédito em 2023, enquanto a preocupação parece ter vindo para ficar.

Mas até onde essa angústia faz sentido? O café é mesmo um vilão mascarado ou só precisa ser compreendido com mais nuance?

A principal responsável pelos efeitos estimulantes do café é a cafeína, substância que começa a agir poucos minutos após o consumo e atinge seu pico de concentração no sangue em até duas horas, segundo a Mayo Clinic.

Ela bloqueia a ação da adenosina — o neurotransmissor que sinaliza sono e relaxamento — e, com isso, estimula a liberação de dopamina, noradrenalina e acetilcolina. Resultado: mais foco, mais disposição, mais bom humor.

O efeito vai além do cérebro. A cafeína também melhora a contração muscular e reduz a fadiga, sendo reconhecida como um recurso ergogênico eficaz por instituições como a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN), que recomenda doses de 3 a 6 mg por quilo de peso corporal para melhora do desempenho em atividades de resistência e alta intensidade.

Mas o café é mais do que cafeína: rico em antioxidantes como os ácidos clorogênicos, ele ajuda a proteger as células contra o estresse oxidativo e tem efeito anti-inflamatório, como mostram estudos revisados pelo National Institutes of Health (EUA).

Café faz mal para o coração?

Essa está entre as perguntas mais buscadas na ferramenta de pesquisa do Google ao longo desse último ano. A resposta é, justamente: não! Inclusive, pode fazer bem — desde que consumido com moderação. De acordo com a European Society of Cardiology, tomar de 2 a 4 xícaras por dia está associado à redução no risco de insuficiência cardíaca e fibrilação atrial.

O café também pode aumentar os níveis de colesterol HDL (o “bom”) e reduzir os triglicerídeos em pessoas sem diagnóstico cardiovascular. Além disso, estudos publicados no New England Journal of Medicine e no British Medical Journal apontam que o café preto, sem açúcar, está ligado a um risco 14% menor de mortalidade por todas as causas, especialmente quando consumido no período da manhã.

Também protege o cérebro, o fígado e os músculos

Diversas pesquisas indicam que o café é aliado da saúde cognitiva. Estudos publicados no Journal of Alzheimer’s Disease mostram que o consumo regular da bebida pode retardar o declínio cognitivo e proteger contra doenças como Alzheimer e Parkinson.

Há ainda uma correlação inversa entre o consumo de cafeína e sintomas depressivos, como indica a publicação Neurology, sugerindo um papel potencial na prevenção da tristeza crônica.

O fígado também agradece. Segundo revisões no Journal of Hepatology e Hepatology Communications, o café está associado à redução de enzimas hepáticas e à menor incidência de cirrose e hepatocarcinoma — especialmente em quem consome três ou mais xícaras por dia.

Nos músculos, a trigonelina — composto natural presente no café — tem sido estudada por seu potencial de preservar a massa muscular em idosos, ajudando na prevenção da sarcopenia.

Quando o café deixa de ser mocinho

Como tudo na vida, o problema está no exagero. A dose diária máxima recomendada para adultos é de 400 mg de cafeína, segundo a Mayo Clinic e a Anvisa. Isso equivale a 2 a 4 xícaras de café coado, dependendo da concentração.

Acima desse limite, os efeitos colaterais ganham espaço:

  • Ansiedade, agitação e irritabilidade, comuns em pessoas sensíveis à cafeína;
  • Insônia, especialmente quando o consumo ocorre à tarde ou à noite;
  • Aceleração dos batimentos e aumento da pressão arterial, com risco de arritmias, como indicam estudos da American Heart Association;
  • Desconforto gastrointestinal, como gastrite e refluxo, exacerbado pelo consumo em jejum;
  • Tolerância e dependência, com sintomas de abstinência como dor de cabeça e fadiga;
  • E, em casos extremos, episódios de overdose por cafeína, já documentados em publicações da Food and Chemical Toxicology.

Populações que devem ter atenção redobrada

A forma como o corpo processa a cafeína varia de pessoa para pessoa. Mas alguns grupos merecem cuidado especial.

  • Crianças e adolescentes: De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria, a cafeína não traz benefícios comprovados nessa fase e pode afetar o desenvolvimento neurocognitivo e cardiovascular. A recomendação é evitar completamente antes dos 12 anos e limitar a 100 mg por dia entre 12 e 18 anos.
  • Gestantes: A metabolização da cafeína é mais lenta durante a gravidez. Isso pode resultar em acúmulo no feto, com riscos como prematuridade e baixo peso ao nascer. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde recomendam não ultrapassar 100 mg de cafeína por dia nesse período.
  • Pessoas com insônia, ansiedade, hipertensão ou problemas gástricos também devem ajustar o consumo conforme orientação médica.

O café descafeinado preserva a maioria dos compostos benéficos, com muito menos cafeína — cerca de 2 a 5 mg por xícara, segundo a Anvisa. Métodos de descafeinação como o Swiss Water garantem a extração da cafeína sem uso de solventes químicos.

Outra tendência crescente é o consumo de café sem açúcar. Além de evitar os riscos do excesso de glicose, essa prática realça os sabores naturais da bebida. Para se acostumar, especialistas recomendam reduzir o açúcar aos poucos e experimentar especiarias como canela ou cardamomo. Cafés especiais, principalmente os 100% arábica com torra clara, costumam ser menos amargos e mais aromáticos.

No fim das contas, o que vale é o equilíbrio. O café pode ser um grande aliado da saúde — do coração à mente, do fígado ao desempenho físico. Mas também pode se tornar um problema quando consumido sem limites.

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