Quem nunca ouviu a pergunta "o que tem de mistura hoje?" ao se aproximar da mesa do almoço? O termo, popular em diversas regiões do Brasil para designar o acompanhamento do prato (seja um bife, frango, ovo ou salsicha), vai muito além do simples vocabulário do dia a dia. Ele carrega uma herança histórica e traduz a relação do brasileiro com a alimentação.
Recentemente, o assunto ganhou força após um comentário no ar na Rádio BandNews FM. O apresentador Luiz Megale criticou a substituição de termos tradicionais pela linguagem fitness e "gourmetizada", que passou a chamar o alimento de "proteína".
Você se referir a um filé como proteína... Você não está respeitando uma das coisas mais importantes do mundo, que é a alimentação. Perde essa proximidade com a comida caseira. Quando você fala 'proteína', parece que está quase industrializando algo que é apetitoso, que deveria trazer conforto. Fica parecendo que você come por obrigação
A origem histórica no período colonial
Se por um lado o termo "proteína" distancia o alimento de sua carga emocional, a palavra "mistura" resgata a própria formação da gastronomia nacional. A simbologia do termo remonta ao período da escravidão no Brasil.
Nas senzalas, a base da alimentação fornecida aos escravizados era composta por arroz, feijão e farinha — a carne (bovina, suína ou peixe) era um item caro e raro. Quando disponível, vinha em quantidades irrisórias, muitas vezes aproveitada das sobras dos casarões coloniais.
Como o pedaço destinado a cada pessoa era pequeno demais para ser considerado um prato principal, a carne era picada ou desfiada para ser dividida entre todos, funcionando como um complemento para dar sabor à base de grãos. O gesto de juntar esse pequeno pedaço ao feijão e à farinha deu origem ao termo "mistura".
Essa dinâmica moldou a estrutura do prato feito brasileiro: uma proporção maior de arroz e feijão acompanhada por uma porção menor de carne ou ovo.
Cultura, afeto e a transição no prato
Com o passar das décadas, a "mistura" deixou de ser apenas uma necessidade de divisão e virou sinônimo de cuidado familiar. Na rotina das famílias brasileiras, garantir a "mistura" na mesa se tornou o símbolo de uma refeição completa, seja com um bife acebolado ou com opções mais acessíveis, como ovos e embutidos. O hábito cultural é tão forte que a ausência de um item proteico tradicional muitas vezes gera a sensação de que a refeição está incompleta.
Entender a origem do termo revela que a forma como montamos nosso prato não é um acaso, mas o resultado de séculos de história, cultura e afeto. E estes são elementos que termos técnicos como "proteína" simplesmente não conseguem traduzir.
