Mel de abelhas nativas vira iguaria e litro pode chegar a R$ 600

Produto de abelhas sem ferrão ganha espaço na alta gastronomia pelo sabor ácido e complexo; baixa produção e colônias menores justificam o valor elevado em comparação ao mel tradicional

Júlia Cabral

Por Júlia Cabral

Mel de abelhas nativas vira iguaria e litro pode chegar a R$ 600
Mel pode ser aliado na dieta
Benyamin Bohlouli/Unsplash

O mercado de mel no Brasil revela uma realidade de extremos. Enquanto o litro do mel de abelhas africanizadas (com ferrão) custa, em média, R$ 47, o produto das abelhas nativas sem ferrão começa em R$ 120 e pode atingir a marca de R$ 600. Segundo Fábia de Mello, pesquisadora da Embrapa, a escassez explica o valor: essas abelhas formam colônias reduzidas e possuem um tempo de atividade diária menor, resultando em uma produção em escala muito inferior à das espécies comuns.

Diferente do mel tradicional de supermercado, que geralmente é um blend (mistura) de diferentes floradas, o mel das abelhas nativas é classificado pela espécie que o produz, como Jataí, Mandaçaia e Borá. Com mais de 250 espécies sem ferrão conhecidas no Brasil, esses méis têm conquistado chefs de cozinha devido à textura mais líquida e ao alto teor de água, o que favorece a fermentação natural e cria notas sensoriais atípicas, que remetem a madeira, cítricos e até queijo.

Kátia Aleixo, bióloga e mestra em entomologia, destaca que a abelha-africanizada, embora seja a mais comum e produtiva no Brasil, não é nativa. Ela domina as prateleiras com variações baseadas na florada, como laranjeira e eucalipto. Já as nativas oferecem raridades como o mel de Borá, considerado uma iguaria de sabor suave e toque salgado ideal para carnes brancas, e o de Tiúba, típico do Maranhão e Pará, conhecido pelo dulçor intenso e aroma floral marcante.

Diferenças entre méis com e sem ferrão

Atualmente, são conhecidas mais de 250 espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, sendo que cerca de 100 já possuem iniciativas de criação voltadas para a produção comercial. Diferente do mel das abelhas africanizadas, que é identificado pelo nome da florada (néctar coletado), o mel das nativas é classificado pela espécie que o produz. Entre os exemplares mais valorizados estão o de Jataí, Mandaçaia, Tiúba e Borá.

Enquanto isso, a abelha-africanizada domina o mercado convencional por ser mais produtiva. Embora não seja nativa do país, ela forma colônias robustas e trabalha por mais horas ao longo do dia. Seus produtos são divididos conforme a origem floral, como o mel de laranjeira (claro e ácido), o de eucalipto (escuro e mineralizado) e o de bracatinga.

Guia de sabores das abelhas nativas (sem ferrão)

  • Borá: Considerada uma verdadeira iguaria por especialistas, possui um sabor suave com um leve toque salgado que remete ao queijo. Na gastronomia, é indicada para acompanhar saladas, carnes brancas e peixes.
  • Jataí: Um dos mais populares, apresenta coloração clara, aroma amadeirado e uma acidez característica. É muito procurado também por suas propriedades medicinais.
  • Mandaçaia: Comum nas regiões Sul e Sudeste, este mel é quase transparente e destaca-se pelo toque cítrico e paladar suave.
  • Tiúba (Uruçu-cinzenta): Típico do Maranhão e do Pará, é um mel bem doce e translúcido, com um perfume marcante de flores silvestres.