
Na maior metrópole da América Latina, uma experiência de abastecimento popular está invertendo a lógica tradicional do consumo e desafiando o monopólio das grandes redes de supermercados. A Gomo Coop supera os conceitos de mercadinho de bairro e se posiciona como um território em disputa que opera sob as regras da autogestão, onde a clássica figura do patrão é substituída pela responsabilidade coletiva.
Ao unificar a figura do consumidor e do trabalhador da distribuição, o projeto planta sementes de emancipação através do trabalho e aponta caminhos para a superação da alienação do consumo. Em entrevista à Band.com.br, os idealizadores e membros da cooperativa detalham os bastidores da engenharia financeira e humana que sustenta o espaço. Leia:
O arranque financeiro
Para nascer no Centro da capital paulista e consolidar sua estrutura jurídica e física, a Gomo Coop precisou desenhar uma engenharia financeira que evitasse o endividamento bancário tradicional e as amarras do capital especulativo. O arranque do negócio dependeu da mobilização de um grupo de paulistanos que reuniu R$ 500 mil por meio de capital próprio, empréstimos solidários e contratos de mútuo corrigidos estritamente pela inflação, sem a previsão de qualquer ganho real ou acúmulo de capital individual para os seus fundadores.
Para se tornar parte da cooperativa de consumo participativa e ter o direito de comprar no local, cada novo membro adquire uma cota-parte inicial no valor de R$ 100 e assume o compromisso contratual de cumprir três horas mensais de trabalho operacional na loja.
Essa estrutura garante que o princípio de não expropriação do valor sobre o trabalho seja blindado desde a base: o destino de eventuais sobras financeiras é determinado unicamente pela Assembleia Geral, que orienta o reinvestimento integral dos recursos na própria infraestrutura e no estoque.
Ou seja, em vez de depender de investidores externos que extraem dividendos, o modelo se fortalece à medida que a base cresce, convertendo o trabalho distribuído em redução de custos operacionais e maior poder de compra junto aos fornecedores.
A divisão social do trabalho na autogestão
A operação diária equilibra esse planejamento técnico com a força motriz de uma base organizada. Para coordenar o fluxo de um supermercado sem replicar as estruturas tradicionais de subordinação, a cooperativa desenhou uma engrenagem que define com precisão as tarefas gerenciais fixas e as operacionais rotativas.
Como pontua Chico Lima, um dos idealizadores do projeto, o segredo está em definir o que é possível ser feito por uma pessoa cooperante, pontualmente, e o que é imprescindível que seja feito por uma diretora de operação, que coordena tecnicamente os turnos sem criar uma hierarquia de mando.
É um acordo entre o que cada um se sente apto e disponível pra fazer e o que a loja precisa naquele momento. A ideia é dar autonomia
Em cada início de período, os cooperantes se reúnem em roda para realizar rituais de conexão humana e divisão de tarefas, os chamados check-ins e check-outs. A ressignificação das relações de trabalho na cooperativa ganha uma dimensão prática na escolha dos termos usados no dia a dia: o projeto baniu o uso do termo tradicional "cooperativado" para adotar a palavra "cooperante" no cotidiano da loja. Como explica Marilia Risi, facilitadora-geral das reuniões, a mudança gramatical reflete o papel de sujeito ativo que o modelo exige:
"O termo 'cooperante' implica ação. A pessoa cooperativada foi cooperativada por alguém, ela não é o agente da situação. A pessoa cooperante está ali cooperando sempre. E ela é vital pra que a gente exista
No chão de loja, a escolha semântica funciona como um lembrete constante de que a engrenagem depende do protagonismo e da ação dos trabalhadores, que também são sócios da Gomo Coop. É nesse espaço coletivo que os problemas cotidianos do varejo são diagnosticados e resolvidos de forma compartilhada, e onde a informação e o conhecimento são distribuídos através da sociocracia como ferramentas de poder. Esse modelo inovador demonstra sua eficiência na capacidade de mitigar os gargalos clássicos do setor.
Questões operacionais complexas, como o faltas nos turnos voluntários, não são solucionadas por punições de uma diretoria executiva isolada, mas por sugestões nascidas da própria vivência dos membros na base, que geraram a criação de redes de aviso instantâneo via WhatsApp e grupos de apoio mútuo entre vizinhos.
A tomada de decisão democrática também orienta a expansão dos direitos econômicos dos membros: em um "plebiscito" recente, a comunidade optou pela aceitação de vales-alimentação, uma escolha estratégica para aproximar o mercado da realidade dos trabalhadores locais e ampliar o fluxo de circulação de mercadorias na loja.
Desafio de escala e a desalienação do consumo
O maior obstáculo da Gomo Coop, no momento, está na escalabilidade dessa estrutura que, atualmente com centenas de participantes, projeta atingir a marca de vinte mil membros. Para crescer mantendo o rigor logístico e fiscal de um supermercado de grande porte sem sucumbir ao modelo de comando convencional, a cooperativa se apoia em tecnologias modernas de informação e em metodologias de gestão compartilhada.
Os cooperantes sabem que o único caminho para o mercado se manter de pé é provar, na prática, o poder da união. Essa organização coletiva surge como uma alternativa real contra a inflação e os preços altos dos grandes supermercados.
Além de aliviar o bolso de quem compra na cidade, o modelo corta os atravessadores e garante uma remuneração justa para o pequeno produtor, que costuma ser sufocado pelo grande varejo no campo. A unificação dos papéis de quem consome e de quem trabalha gera uma profunda transformação subjetiva. Marilia Risi relata a mudança de postura dos integrantes:
É incrível a quantidade de ideia boa que surge quando não tem alguém no seu pescoço
Essa percepção é compartilhada por Magdalena Hiriart, socióloga e cooperante que enxerga o projeto como uma ferramenta de transformação cultural e política: "A Gomo Coop não vai desfazer tudo que a gente tem por hábito, mas vai criando sementes. O meu propósito é esse: ver certas sementes serem espalhadas e quem sabe um dia mudar um pouco a maneira de se fazer política".
Historicamente, o cooperativismo de consumo surge no século XIX como uma tática de resistência da classe trabalhadora contra a escassez de recursos e a exploração industrial. No contexto urbano contemporâneo, a Gomo Coop atualiza essa tradição ao oferecer um circuito curto de abastecimento que garante o acesso a alimentos limpos, agroecológicos e orgânicos a preços justos, criando laços comunitários profundos que o consumo mercantilizado é incapaz de produzir.
A experiência prática do chão de loja ensina que o engajamento na construção do bem comum modifica de forma definitiva a percepção do indivíduo sobre a circulação de mercadorias. O projeto sinaliza para o Estado que o cooperativismo participativo é uma política pública potente e subutilizada no Brasil, demandando marcos regulatórios adequados, incentivos fiscais e fomento financeiro direcionado para que essas sementes de transformação econômica se espalhem por toda a sociedade.
